domingo, 17 de agosto de 2014

MIAU FU FU

Como um gato que se inebria perante uma porta entre-aberta
O dia nasce no horizonte espreitando uma linha descoberta
Um acordar desperta, à mesma hora num prédio esquecido.
E um povo entorpecido amanhece convencido
que hoje o dia será de jornada
A ilusão é então lançada...
Servida e imaculada por uma chavena de café da manhã
Que sem pão para o seu sustento,
dão aos corpos desnutridos, almas enguiçadas
Presas a um novo aumento, na balança dos impostos.
Lá fora o barulho irrompe a madrugada...
Transportes públicos apinhados e amarrotados de gente
proliferam as artérias
Saindo religiosamente todas as manhãs, a um mesmo horário.
Dando agasalho, a vírus e constipações
Ao longo do dia já se comia mas sem provisões, há sempre um mosquito ou uma aranha a reclamar distracção, presas à sinfonia de concursos de televisão, com sorteios que nunca se chegam a conhecer os seus justos vencedores.
Agora a tarde entardece, mas ainda é cedo para cumprir o mesmo enredo, de sentimentos assolapados na guelra
Um telefone toca e do outro lado da linha já não se adivinha o ente omnipresente...Pizzas, promoções, descontos, notícias e ilusões de saldos positivos desaguam nos tímpanos apelidando-os de infractores da moral, numa ética vigente sem igual, modelada pelo bacanal da promiscuidade
Amanhã certamente o galo não se esquecerá de cantar a mesma hora
Nem a bica será esquecida de ser bebida pela habitual rotina
O jornal esse será igual de uma ponta à outra
E na TV o teletexto passará notícias de um telejornal
E a ideia que fica é que na realidade nada  fica, se não o que se sente...
Se não a ideia de ter passado um dia algures por aqui, indiferente
A um compasso relaxado felino que à pouco acabou de acordar
por sentir lá ao fundo na perpendicular, o diâmetro de uma porta entre-aberta.

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