quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A FORMULA IDÍLICA

Atravessámos com um olhar
dialectos de ternura
Tão frágeis de se sintetizar
E sorrimos

Representámos movimentos
nas formas sinceras de encenar
um mesmo pensamento
E achámos

Numa linguagem imprópria
de verbalidades
Numa lógica distante
da história
E fomos ao fundo

Com a coragem de provar
a liberdade...
Na comunhão solene da nossa carne
E chorámos
O que o pensamento diluiu

A formula idílica de ser

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

INDIVISÍVEL

Entre a vida e a morte
Há o céu e a terra
Há a sorte de haver um lugar

Entre tu e eu
Há uma distancia a se perder
Há um caminho por encontrar

Entre o pensamento e a saudade
Há um passado
Há uma rima

Entre a dor e o afecto
Há uma vontade
Há uma sina

Entre a paixão e o amor
Há um sabor
Há o desejo

Entre a surpresa de um beijo
Há sempre um frio
E um arrepio...
Que encrespa por dentro

Nada é um concreto no abstracto do gesto
E todas as perspectivas são validas e capazes
para se concretizarem momentos unos

DESPROGRAMADOS

No monte das vulgaridades
eu me carrego ao colo
Não vá o verniz da hipocrisia estalar
E eu daqui cair ao chão
me estatelar...
Sob os despojos da enfermidade de alguém

Dono e senhor do pensamento
caminho sobre os escombros do tempo
Não dando ênfase ao todo desprogramado momento
Que é ver a imoralidade espalhada e perfilada
sob autdors do incumprimento
Em campanhas que já nem iludem
o mais agonizado dos vómitos

"Para um futuro melhor"
"A favor de Portugal"
"Pelo interesse nacional"
"Há cada vez mais gente a pensar como nós"
"Rigor e solidariedade"
"Chegou a hora da verdade"

Tudo isto já não vinga
Tudo isto não chega para ser fado
Tudo isto é tão sinistro
que eu aqui ao colo me pergunto :

Será que vai haver algum lugar
onde eu possa aterrar o pés ?
Será que o tempo só nos revela o óbvio
feito fogos de Verão ?
O que será do amanhã se hoje
amorteço apenas as horas ?
Terei eu no tic-tac do tempo
um jeito de me acertar ?
Ou haverá no futuro uma factura a pagar
pelo pulso desadequado de um pulsar em nós projectado ?

Há uma idade em que a existência não tem B.I.
Em que um despertar não se reconhece em si mesmo
Em que divagar é o meio de apalpar o motivo...
Um desconforto
Uma direcção

Pergunto-me porquê
da chegada a hora da decisão ?
Desta existência que não existe
mas que persiste em existir
Encoberta de razão para não se evidenciar
Concluo que toda a informação depreendida
que não é exercida na prática
É convocada para o palco dos lamentos
Um palco que não alimenta
mas que sustenta a ideia
de um...
Podia ter sido

Gases tóxicos elevam-se do chão
Odores nauseabundos assomam-se dos corpos caídos
E num clima de podridão as cidades se espraiam indiferentes
Aguardando a maré de cada estação
a varrer os restos dos despojos rendidos

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

INSTANTES

Tenho saudades que me saúdam tanto


Como tanta é a noite dos dias que não amanhecem


Como banais são as manhãs ausentes  que me entristecem


E os finais de tarde que nunca se chegam a chegar a ti


Por insatisfeitos serem aqui...


Os meus instantes tão perto dos teus

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

CRUA A PALAVRA

No cru começo
Início
Parto
Liberto
Amassando a matéria
que não é prima
Quanto muito irmã
De um processo que se afina...
Que traz à tona
a essência da sua estirpe

Crua a palavra
Desenvergonhada
Que vai nua
Quando a distancia do pensamento e do traço
se exploram e corroboram
De um descomunal entendimento

Crua a noite
Cintilante
Pensativa
Companheira
Contemplativa
Esperando todos os dias as manhãs
Repleta de desejos
e de vontades
De não nos sermos cobardes...

Entraves impostos à rebeldia
Por sabermos que provimos do fundo de um grito




sexta-feira, 18 de outubro de 2013

PAIXÕES

Iludidos
Provámos
Frustrados
Dormimos
Na cama do desejo

Deliciados
Sorrimos
Saciados
Confundimos
O amor com a sede da paixão

Solitários
Ficámos
Carentes
Amealhámos
Vontades imersas no caldo do pensamento

Um dia havemos de voltar cá
A procurar
A remexer
e a esgravatar
Depósitos que ficaram algures num tempo...
Por realizar

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

CONFESSIONÁRIO

Confesso que me consigo ser na palavra mais alguém
do que aquele em quem
se enquadra no meu traço

Confesso que me sou muito mais ausente
do que o todo clarividente...
Presente
De um imediato

Confesso que sou o meu maior pecador
por me aproveitar tanto mas tanto
do proveito da minha inutilidade

Confesso que a minha loucura é errar
e que o acerto não é tanto a minha procura
Pois a forma pecadora dos meus actos
não se enquadram no mundo dos sensatos
Onde eu me afogo

Confesso que me minto por segredos
que jamais serão contados
Por omitir tanta verdade
disciplinada na liberdade
De escolher a solidão
Que uma vida fora do pensamento

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

INDIGENTE

Vamos pensar-nos em comunhão
e juntarmos esforços
para atalhar o fingimento que nos assola ?
Ou...
Vamos ser perseverantes
de enfrentarmos as regras
não assumindo a justiça ?

Porque se é para ser vulgar e normal...
Vamos então o ser de maneiras concretas
E nos desvalorizarmos da gente
no mais completo dos indigentes
Que na vida se arrasta
e na rua se imola

PAZ DE ESPÍRITO

Melhor do que fazer...
É dar certo
Melhor do que tentar...
É mergulhar de caras
Melhor do que saber...
É não se deixar mecanizar
E melhor do que idealizar...
É por terra nas unhas

A paz de espírito
acena-nos de um lado e do outro
Nos extremos da nossa relatividade
Incitando-nos a queimar matéria e energia
Para que um dia possamos ser mais
do que uma mera formula... inerte

Todo o resultado para se discernir
tem que saber saltar a barreira
dos dois tracinhos que compõem a igualdade

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A CIDADE

A cidade sou eu e as reticencias...
É um habitáculo de um carro
com o radio ligado
que não me diz o caminho...
É um telefone cravado no olhar
que não me presta atenção...
São os cheiros que não alimentam
nem os parcos sorrisos me sustentam
o território da alma...
É o alvoroço da pressa
a querer escapar
para não se denunciar
à futilidade...
São os toques mudos
que arrepiam o desalento
por camuflarem as mãos nos bolsos
a maior parte do tempo
o desapego da jornada...
São os passos no caminho
que dão fome aos passeios...
É a saudade que no alto da cidade
procura pelos pombos
que emigraram sem avisar que partiam
para se fazerem gente noutras paragens...
São as estradas as ruas e as artérias
que são sempre poucas
para alcançar tanta individualidade...
São as multidões impregnadas de lamentos
que se procuram por interrogações
respostas que nem são as suas...

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

DUALIDADES

Para existir
Para se saber...
Um dia até a duvida precisará de se duvidar para se convencer
Que para crer numa existência
tem de haver
dualidades que se concluam

Como o  intenso precisa do suave para se sentir
O amor também precisa de ignorar para se medir
A vida precisa da morte para se suster
O homem precisa da mulher e da sorte
para se ser
A semente precisa da terra para florir
e acreditar..
Que a certeza habita na união
Para prosperar
crescer
e se concluir

Para que a duvida exista
tem que haver primeiro a aceitação num acreditar
Pois a duvida para viver
tem que se crer algum dia em primeiro lugar

Um dia até a duvida precisará de se duvidar para se crer...

domingo, 6 de outubro de 2013

VITAMINA D




Um dia de sol quando bem aproveitado
tem de haver marcas no corpo...
E rugas a gargalharem no rosto 
por todo lado

sábado, 5 de outubro de 2013

PLENITUDE

Dá-me o mar

o vazio

a madrugada

Dá-me as fontes

a estrada

o horizonte

Dá-me o caminho

e não me digas nada

Ou então...

Dá-me os sonhos

mas não mos contes

DOR DO SÉCULO

Um homem só precisa de amar
se acreditar que lhe faz falta

O amor é a dor do século
É um desejo cultural
incapaz de explicar
o vazio animal
na sua constante procura

Quem procura crê
que algo lhe escapa
Num eterno alento de satisfazer
uma herança cultural
que aponta em todas as direcções...
Um mesmo caminho

Um homem só precisa de amar
se acreditar que o desconforto
é do tamanho do amor
E que na dor
é ele quem cura


terça-feira, 1 de outubro de 2013

GRITO DE IPIRANGA

Respira fundo
Aprende a albergar paisagens castelos e a beleza das flores
E inspira...
A dádiva maior que a vida nos dá é respirar

É um saber que não lhe damos ouvidos
por estarmos garantidos com o essencial
É um saber que rompe fronteiras
e aproxima o discernimento
É o saber que é a corrente de ar que amplia os espaços
com as certezas mais profundas
É sentir que para persistir na vida
à que saber simplificar para ir um pouco mais ao fundo
Até sentir um pouco mais do que um mero respirar

Todos os momentos em que nos surpreendemos
são novas etapas para ampliarmos novos horizontes...
Clarividências mais concisas
Que só quem se ventila com o devido acerto
é capaz de crer
e enxergar uns metros mais adiante
 
Da vida eu respiro
Respiro fundo
E quanto mais ao fundo eu vou respirando
mais eu levo dela