quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O GRÃO DA SOMBRA

A alma é como a pele de um coelho
Uma vez escalpe
nunca mais em tempo algum
atingirá a forma
que na carne a vida sustenta

Um corpo também é assim
Quando desintegrado pela terra
já mais será razão
para que uma ilusão
faça parte de um sonho

A vida dá-nos vida
não é a forma que nos dá vida
Da mesma maneira que um grão é sempre grão
Só adquirindo a sua sombra um dia
quando o sol o achar...
Integrado no volume dos corpos

terça-feira, 26 de novembro de 2013

NO QUADRADO DO QUILÓMETRO

No metro ou no quadrado do quilómetro
Nada de novo
Nada se aglutina
Se não os números...
A cocaína
de um vazio aritmético

A proximidade dos corpos
também não é seguramente a via mais presente
de nos darmos
Mas sim
a forma conseguida para nos medirmos
E num placebo nos medicarmos

A verdade essa
é na distância que se alcança
Que abraça e nos balança
Ao contrário do que se possa pensar

Sem inventar palavras
Reinvento-me todos os dias
Construindo caminhos e formas independentes
de me conectar com verticalidade
Atingindo a distância onde jazem os amores
e os sonhos das noites que me sonhei

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

LIVRE ARBÍTRIO



Um abraço está para o gesto

como os investimentos estão para o prazo

Rendem sempre muito mais

quando somos nós a ter as rédeas do tempo

DECOMPOSIÇÃO

Acordas todos os dias a ousar
mais do que aquilo que és
E adormeces sempre a julgar
a errância dos nadas que foste

As horas também são assim
passam sem passar
Até que lhe apertes o pulso...
E olhes para o relógio te dizer
O correr que não te passou

Cronometramos o pulsar
tão poucas vezes
Escassas são as vezes
que inspiramos fundo
Demasiadas são poucas as vezes
que bafejamos a felicidade
E ainda assim
Ousamos por um fim tão perfeito

Sou muito mais atento
Quando no mundo das palavras me componho
Esta minha decomposição já gasta
De uma carne desatenta
Que se arrasta
Sonolenta e errante 

Mesmo que daqui pouco
eu já não saiba de mim
e esteja distante
Sei que no aqui e agora eu pouco fui
daquilo que me sonhei
E pergunto-me...
Será bom sonhar ou até questionar à pergunta por nós
quando no concreto da voz
se esconde uma imensidão no pranto ?

A dúvida é a nossa essência
A resposta é o que nos distingue
E a simplicidade é o nosso encanto
neste binómio entre o pensar e o agir

terça-feira, 19 de novembro de 2013

INOCÊNCIA



Um corpo nu

nunca é o nu de um corpo despido

O nu mesmo que vestido

será sempre um corpo rendido...

Apaixonado

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

CASUALIDADES

O homem só precisa da duvida

para se reinventar

De disciplinas

para se esquecer

E de uma boa dose de afecto

para se deixar levar

e envolver...

No mais amargo dos dias

domingo, 17 de novembro de 2013

SULILÓQUIO




Vamos fazer já
Sem nos chantagearmos com o tempo ?
Vamos assumir nos corpos
o toque na alma ?
Ou vamos depositar a prazo o prazer
mesmo sem ter
o juro devido ?

Se tiver que acontecer
Assim será
Que seja intenso...
Se a intensidade desde logo se manifestar
Que tenhamos bom gosto
No chão ou na cama?
Tanto faz
Já pouco importa
Pois bem sei que
o que prevalece em nós
são apenas resquícios de recordações

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

MORIBUNDOS

Há uma geração que está a crescer
Há uma crise que não para de se alastrar
Há um cem numero de sem abrigos que todos os dias conhecem...
As pedras da calçada

Há uma solução que não se chega a por em prática
Há uma verdade cobarde que não chega a cortar a meta
Há uma evolução na comunicação que nos distancia tanto

Há um doente em cada canto de um quarto a chorar atenção
Há um hospital sem o fundamental da cura
Há uma canção que perdura trauteada na memória
Há um alguém que sem saber será história
Há uma cidade disposta a te acolher

Há uma motivação que se ergue precisa
Há um destino que se perde do rumo
Há um futuro despido de esperança
Há uma paz podre e um povo moribundo

Há uma verdade que se revela numa lágrima corrida
Há uma fome continua que não se encontra no alimento
Há uma noite que é comida ao relento
Há um sustento
Há uma vida 
E há sempre um fim

Após ou no termino de cada começo

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

FAZ DE CONTA

Existem sonhos que são para serem iludidos
Apenas sonhados
Vividos
Desejados na história de uma fábula


Trago algumas dessas histórias
bem dentro dos meus bolsos
E procuro com a sensibilidade dos dedos
não as amachucar
Tentando vasculhar e trazer à tona
apenas e só os sonhos
Aqueles que não interferem
num faz de conta
Desses meus contos de fábulas

domingo, 10 de novembro de 2013

A ORDEM DAS COISAS

Se o sexo é anarquia
sem ordem nem protocolo
O amor também não pode ser só poesia
com um rigor tão melódico
Pois ambos se conjugam de frente
em harmonia
Quando o ser selvagem é animal
e o doce do afago
Um suspiro que rima

Que não busca o ar para se alimentar
se não um caminho para se suster

A ordem das coisas é desorganizada
Mas cúmplice...
Por haverem em todas as perspectivas
ângulos capazes de se fortalecer

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O PESO DA ALMA





Se fosses a metade daquilo que dizes
não serias tu
um quarto daquilo que calas

...sim
pois também é num quarto que adormeces os sonhos