terça-feira, 25 de novembro de 2014

AMANTES

"Gosto mais do improviso"
Soletraste-me tu ao ouvido
"Gosto das palavras que me atiras à cara
Sem aviso...
Gosto da tua espontaneidade"

Olhei para ti e calei-me
Digerindo o acerto da razão
E sem contemplação, no silêncio toquei-te

Nesta linguagem tão particular, sai da margem da ponderação
e cheio de tesão fui mais que a tua verdade
Atravessando a barreira da proximidade
provando-te a temperatura por dentro

Salgados deixamos a oralidade dos corpos se entenderem
Conjugando todas as arestas a se provarem
Adestrando formas de se ramificar o léxico
Dando ao momento argumentos de se inebriar

Hoje mesmo distante...
Já só dormimos um com outro
Já confundimos o sonho com a realidade
Já não somos só amantes na verdade
Somos já uma metade de uma outra dimensão

domingo, 23 de novembro de 2014

SENTIR

Conheceram-se num instante, naquele preciso momento
Sem preverem o acaso da ocasião
E com toda a motivação ousaram que se sabiam tanto um do outro
como ninguém sabe coisa alguma de si mesmo
Indusido o inusitado a acertar-se.
Como o tempo que acerta as horas de um relógio de pulso
sem se deixar enganar por um impulso
de uma qualquer pulsação
E foram a jogo!
Jogaram sem prever as regras e os trunfos que semeavam a cada toque dos dedos das suas mãos
Construindo sonhos livres e mais perfeitos do que aqueles que se buscam a cada esquina
Escondendo-se eternamente do mundo feito crianças traquinas
Como as estrelas que se apagam na noite, sem dar abrigo ás almas pequeninas
Que não avistam ao longe a geometria das constelações
E fizeram das noites um véu de veludo
Das pedras talharam mais longe o horizonte
Dos murmúrios entregaram ao vento o sentimento
E ao mar deram ondas de espuma a cantar, ininterruptas
Para nos fazer lembrar diariamente
que para seguir em frente basta haver na pele
a textura de um toque de frio

DEDICAÇÃO


Quem luta com dedicação e honestidade
ainda que uma verdade não prevaleça
É no fundo um vencedor...
Que persiste na oração sem que a dificuldade o esmoreça

terça-feira, 18 de novembro de 2014

FLAGELO

Ao longe avistei um vulto em bicos de pé, que se debroçava sem contemplação sobre um caixote de lixo em plena luz do dia
A agonia atingiu-me "deste longe" a fronte, e sem ponderação abri a carteira... Quinze euros para ajudar uma pobre mulher
Respirei fundo e logo a moral tomou conta dos meus gestos, que para ser honesto e preciso para comigo apenas peguei numa nota avermelhada e encaminhei o passo em direcção aquele "quase nada" de gente, de cabelo desgrenhado e de olhos perdidos.
"Não me leva a mal se lhe der esta nota?"
Ela olhou para mim, sem saber o que me dizer
Estendeu-me a mão e desviou o olhar... "Obrigado senhor"
Virei então as costas à vida e mergulhei no meu mundo, neste meu lugar profundo onde ouso ser um pouco mais que alguém... Banal e tão igual a tanta gente
A sós com a palavra atirei-me à sentença, e mesmo que a verdade nem prevaleça, quis escrever o que o momento me intuiu

O maior flagelo do mundo não é a ganância do homem
O maior flagelo do mundo é a esperança dos oprimidos


sábado, 15 de novembro de 2014

TACITURNO



Se hoje a tristeza me abraça-se, ela sorriria
Não por estar satisfeita ou a rejubilar de alegria    
Mas por se sentir imperfeita na sua capacidade de se entristecer

Tudo o que evidenciamos na escrita é uma forma intelectualmente bonita
de nos declararmos ao mundo
Pois o tempo é no fundo...
Recordações

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

INTERMITÊNCIAS PRAZEROSAS

A intermitência de um momento é tão exacta quanto os picos na pele de um arrepio...
Há sempre quem os descreva
Há aqueles que o tentam, mas, sem nunca alcançar
E há ainda os outros que passam pelas emoções sem constrangimento sem nunca estagnar  
A felicidade é tão vibrante quando um instante nos devassa
E por ter a sua graça ela é escorrogadia e fugaz
Nunca  se entregando a um satisfaz quando um excelente é o exigente insatisfeito prazer

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

PROPAGANDEIA-TE

Propagandeia-te                                                                  
Se não souberes vender a tua pescadinha
nunca passarás além da espinha, de um mero carapau
Promove-te
Envolve bem o isco na ponta de um anzol
para que fisgues do mar todo o reflexo dos raios de Sol
Que cristalinos adornam o céu da terra
Difunde-te
Propaga no eco o dialecto das tuas ilusões
e deixa-te invadir quando o submerso emegir a essência das emoções
Que coloridas e odoriferas promovem o pisar... A calcar um  chão mais fundo
E Pluraliza-te
Rompe a singularidade do mais profundo que te jaze no peito
Gritando para fora toda a aurora que não viste nascer a perceito
Para que o mundo um dia seja muito mais empatia do que um despertar taciturno e desatento




terça-feira, 11 de novembro de 2014

ATAQUE OU DEFESA ?

De frente pró mar
de braços abertos de costas para a terra  
A vulnerabilidade se entrega, a um que será...

Ataque ou defesa ?
Esta é a grande verdade no mundo impreciso da mãe natureza
Trunfos e fraquezas dispostos a se provarem      

Assim são os dias
Alegres ou nublados por apatias
Crentes ou indolentes, sucedâneos de letargia
Por  lógicas imprecisas de validades
Quando na realidade...
Tudo o resto é tão mais tudo
do que a fatalista e indecorosa dignidade

Dignas-te ou indignas-te?
Atacas ou defendes?

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

UMA NOVA ESTAÇÃO

O amor não acaba
O que termina são as estações  
Olhou para a moldura em tons de azul bebé e repreendeu a emoção que por ela se assomava  
Puxou a foto delicadamente com as unhas e vandalizou-a com uma chama lanraja até queimar os dedos polegar e indicador. Deixando a cinza espalhada pelo quarto desarrumado na penumbra da desmotivação
O amor não acaba
O que termina são ilusões
Esta jovem provou no passado o intenso do sentimento,  e hoje sem sustento, apagou todos os vestígios que comprovavam um amor capaz de a agasalhar
Entrou na casa de banho para lavar as mãos e olhou o espelho que à muito a contemplava
O seu reflexo era tão difuso que mal se reconheceu
O seu estado era tão atormentado e confuso que de repente, fez-a olhar para trás, julgando-se na solidão com mais alguém
A verdade é que estava só, tão solitária que nem se apercebeu o quanto mal tratada se tinha fustigado
O amor não acaba
O que termina é uma oração
Tomou um duche para se livrar do quebranto e mimou-se ao pormenor, para que em seu pranto os dias não fossem tão cinzentos
Acendeu um cigarro e filosofou argumentos que lhe conferiram pensamentos muito mais capazes do que a realidade em que se aninhara
A sua história chegara  ao fim, mas ainda tinha tanto caminho pela frente por lavrar...E logo se agonizou, ao pensar que agora estava só
Quanto tempo precisa a agonia para  devassar um corpo nú?
O amor não acaba
O que termina é a escravidão
Pegou num caderno onde sempre escrevia o que lhe apetecia em jeito de sonhos... Que não precisam de lucidez para vir à tona
E compôs na palavra um enquadramento que lhe conferiu acerto ao terminar o texto, assim desta forma
"...O amor não acaba
O que termina é a paixão
Onde a posse é um direito, e a razão nos apequena"

terça-feira, 4 de novembro de 2014

NO DEGREDO DA GERAÇÃO

Quando o imoral é o que moraliza a moral é sinuosa                
Assim era o seu filho.
Cortês e delicado mas sempre tão distante e reservado para com o seu progenitor, que nem por tio ele o tratava
Nunca o havera procurado, nem lhe concedera carinho de ente querido
Na verdade este rapaz nunca o tratara nem o houvera distinguido na sua qualidade de pai
Os amigos diziam para o homem :..."Tem calma, chega sempre a hora que os miudos ganham clarividências"
Outros incentivavam-no a procurar o filho para fomentar laços de proximidade
Havia ainda aqueles sensatos que o ouviam e o amparavam em seus braços promovendo assim camaradagem e momentos de pura cumplicidade
A vida para este pai era resumida por uma moralidade... Mórbida
Cada dia longe da sua cria definhava ininterruptamente, sempre mais um pouco
Mas haviam aqueles dias imorais em que a carne era sarada com pedras de sal para ajudar a cicatrizar as feridas mais profundas
Não havia momento em que o tormento não lhe passa-se pela cabeça, mas a sua história era igual a tantas outras
Pai negligênciado por uma educação infame, que nunca fora a sua.
Fora abruptamente distanciado do seu filho por uma conduta vil com aromas a ganancia e a mesquinhez...
Agora na escravidão da memória havia uma saudade que por mais ingrata que fosse seduzia o seu amor próprio a despedir-se dos gestos e a abandonar, a sua sensatez
E aí então procurava o seu filho ponde-se a jeito para o abraçar ou até se fosse preciso mendigar por um qualquer carinho.
Hoje tal como em todos os seus encontros, a hora já tinha passado e ele ali já se assumia uma vez mais presente... Ausente no desapego da demora do seu rebento
Um bip do telefone despertou as almas dos transeuntes que por ali passavam
"Pai desculpa só agora te dizer, mas não vou poder ir hoje ter contigo... Beijo"
Olhou em redor e leu mais uma vez a mensagem, e fingiu que a saliva que engolia naquele instante não se tratava de tristeza, não dando a beber aos melitantes que por ali passavam, motivos de ambandono.
O imoral de novo vandalizou o seu amor próprio. E sem motivo nenhum sorveu uma golfada de ar que lhe conferi-se acerto ao seu modo de pensar não fosse ele deixar se levar na maré de desdém
"Um beijo filho...Espero que esteja tudo bem e já sabes...O pai tem muito orgulho em ti"
Dito isto, mergolhou na multidão, levando na ideia que uma educação quando desnutrida de moral é fulcral para a degradação das gerações