Se um dia eu tivesse o poder para apagar os meus pensamentos para não ter que suportar a dor, e esquecer um amor mal sucedido. Ainda assim, eu teria recusado apagar de mim as memórias que me causaram tantos danos. Pois entendo que tudo o que me fez sonhar um dia é património da minha existência, é a pérola de um oásis verdejante interior, de uma riqueza de viver em harmonia com uma certa dose de desconforto, é certo, mas talvez isso até seja necessário para entender que a paz, também ela, precisa de ter na sua sombra reflexos de um passado desordenado para que o acerto entenda, que agora, a realidade faz todo o sentido.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
DIOPTRIAS
O homem muda, o sentimento muda, a visão muda, a estrada muda, o sorriso muda, a nossa casa muda, até o amor muda, só quem não muda é o hemisfério de um abraço apertado, tão interior...
Nada se apaga tudo se refaz, e até um olhar cansado aprende a vislumbrar mais longe, independentemente do tamanho das suas dioptrias
Só quem se adapta ao presente vive de frente a outras realidades.
quarta-feira, 24 de junho de 2026
SINAIS
Será eterna a demência, daqueles que fingem não acreditar nos sonhos?
Será o homem capaz de fazer boas leituras, quando é descrente e agnóstico, ao voltar-se de costas para tudo o que lhe escapa?
E se o mesmo sonho for uma constante da vida, haverá no mundo matéria de psicologia capaz de nos fazer acreditar na hipnótica correria do dia a dia desta dissonante realidade?
Resta saber se continuaremos eternamente a aprisionar a mente na matéria, ou se afinal permitiremos que a alma decifre o que a lógica insiste em ignorar.
domingo, 14 de junho de 2026
CHAMA
O amor é quando a gente mora na mesma chama um no outro.
Se chama, nós esquenta, nós vai...
O amor é louco.
Sem drama de viver colado corpo no corpo, mesmo se uma brisa de verão num mês de Agosto, não vier para nos refrescar.
O amor é suor
O amor não engana
O amor arde
O amor é chama.
* texto escrito em tom Brasileiro
segunda-feira, 8 de junho de 2026
A FLOR DO DESEJO
Sabes qual é a maior riqueza que se pode oferecer a uma mulher mas que não cabe dentro dos bolsos de um homem?
Formulei esta pergunta, do nada, com esperança de a fazer sorrir. Ela olhou para mim com os olhos a brilhar e disse-me "Chuta".
'São... as flores... Sabes porquê? "
Olhei-a também eu com os meus olhos a brilhar, talvez por reflectir nas minhas órbitas o encadeamento dos sinais de máximos dos seus...
Sem pestanejar respondeu-me de pronto com um "Não" bem redondo, como se a curiosidade não quisesse perder milésimos de segundos para bater um recorde mundial, numa corrida de 100 metros.
"Porque... sem espaço e no escuro... longe do olhar e dos afectos... todas as flores murcham"
Ela abraçou-me como se as horas ainda não tivessem sido inventadas pelo homem, segredando-me, momentos depois, em voz rouca ao ouvido.
"Podes-me levar no teu bolso?"
Zááaaaasss...Caí de mim, numa queda estrondosa que me esfolou cotovelos e joelhos, ao puxar-me o tapete da realidade por completo. Raptando-me o discernimento ao não responder com prontidão e clareza a uma equação tão complexa.
"Eu sou feliz de noite ou de dia, em qualquer espaço apertado ou frio, onde couber. Eu sou como as ervas daninhas, não preciso de muito preciso é de viver com esperança de ser mulher perto de um homem que me queira daqui até à lua."
O silêncio entrou no raio do nosso olhar e sem marcação para nos tatuar na pele uma marca tão profunda, semeei na memória esta história que os anos iram lembrar, nas noites em que a sede me dominar o desejo, de um corpo nu... Carente de atenção.
sábado, 6 de junho de 2026
sexta-feira, 29 de maio de 2026
CARA OU CROA
A escolha do amor não tem um livre arbítrio, a escolha nunca depende de nós, somos simplesmente por ele os escolhidos.
O que depende de nós são meras interrogações, e não um refinado instinto, que tenha uma verdade nua e crua na ponta da língua. Uma explicação capaz de descrever a atracção de corpos que inepterruptamente se reenvindicam, de noite e de dia, mesmo que os anos, a solidão, os fármacos, a nostalgia e as vicissitudes da vida o tentem apagar.
Quando no ar uma moeda é arremeçada, nunca cabe a ela escolher, se é cara ou se é croa, restalhe apenas num curto espaço de tempo bailar.
Amar também é uma aprendiz do destino, mesmo que descalça saltite desamparada e fragil pelos caminhos, não vá a dor da direção a persuadir, e, perder-se, para nunca mais se encontrar.
sábado, 23 de maio de 2026
GEOMETRIA DA PULSAÇÃO
Ler muitos livros pode ser até enriquecedor mas desejar bastante é o que nos aproxima...
Por isso há momentos desejados que vividos já mais seram esquecidos da memória, daqueles que não perderam parte da sua história a ler os livros de alguém.
Ler ao não ler, talvez possa até ser viver.
Porque até para desejar é preciso ler os sinais das geometrias e das pulsações.
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