quarta-feira, 20 de maio de 2026

NO VÔO DE UMA ONDA



Esquecer da importância que tem o amor nas nossas vidas, limita-nos!

Deixam-nos rabugentos, olheirudos, distraídos,  desinteressantes, cinzentos, velhacos, amenos, preguiçosamente pequenos... Enfim!
Subtraí-nos viver aos dias que se querem fartos em caricias, intensos de sorrisos rasgados, repletos de magia, pelo toque de dedos curiosos em aprender a leitura da adrenalina, que pulsa por todo lado, em todo o hemisfério da pele.

À quanto tempo não te picas... Não cais em ti, num bom e belo arrepio?
Os corpos precisam de sustento...
O corpo reenvindica à carne o arrepio para assinalar o momento, de ir ou ficar, se faz ou não sentido.
E por falar em sentido, ainda te mentes ao fugir de um olhar, que te faz suspirar por outras paragens?

O nosso estado de espírito só depende de nós. E se a mobilidade com que nos movemos pelos caminhos dos estímulos, for de uma sinceridade atroz, para com os nossos desejos, nada nem ninguém no mundo nos irá parar.

Lembrar da importância que tem o amor nas nossas vidas deveria ser a prioridade para o homem, para que  as noites mal dormidas não fossem apenas o peso das saudades, mas sim, reflexos de vontades borboleteantes a surfarem a onda do desejo.


Amar é todo o destino, mesmo que descalço os caminhos não sejam feitos de praia.

  

 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

CONVICÇÕES




Que bela é a beleza que não se apaga nem se desgasta, 

com o uso, 

nem com a atenção do olhar.


A morte é terrível quando a vida não se acaba...

Quando a vida não  é envolvida,

 quando não é enamorada.


quinta-feira, 7 de maio de 2026

STOP



 ...que ao menos te roube um instante, um olhar que não seja somente para assinalar um obstáculo mas que te faça pensar por breves segundos. E se não voltares a pensar mais em mim, acredita, já valeu bem a pena, termos trocado resticíos de fragilidade ao chocar o nosso olhar, naquele cruzamento, daquela estrada onde as direcções são sempre direccionadas, de modo subtil, pelo algoritmo das decisões.


Aposto que dez metros mais à frente, depois de teres passado por mim, só não olhas-te para trás por achares uma tremenda falta de perspicácia não nos termos abraçado, quando as vontades eram tantas.

Creio que amanhã irás fazer tudo igual, tudo da mesma maneira. Irás encarnar essa actriz principal, a rotina, de modo a não haverem falhas, nem um milímetro de desvio da nossa sina, de forma a nos cruzarmos uma vez mais neste cruzamento.

Confesso que ainda me encontro aqui, à tua espera, a olhar para aquela esquina, como um sinal de trânsito quadrado, de 8 arestas, de cor vermelha onde todos os carros param nos cruzamentos, e onde sem dares pisca desapareces-te de repente, à direita desta Lisboa.

terça-feira, 5 de maio de 2026

A ARTE DE PINTAR OS SONHOS





Piscou-lhe o olho e abraçou o seu neto soltando, nesse preciso momento, o balão que trazia preso a um cordel numa das suas mãos, por de trás das costas do petiz.
A criança entusiasmada, ao ver o balão subir para o céu , saltou, saltou e saltou inebriantemente, para tentar o agarrar...
"Não pares de tentar que consegues, pula que consegues!"
E deixou-se contagiar pelo entusiasmo do seu neto e saltou também ele para essa dimensão onde as possibilidades são de todo possíveis.

"A vida só é vivida por gente que não tem medo de pular... sabias?"
Disse-lhe mais tarde o idoso quando já caminhavam para casa.
A criança sorriu para o seu avô e perguntou-lhe
Porquê que os outros avós não sabem brincar como tu?
O velho enterneceu-se e tapou com a palma de uma das suas mãos os olhos da criança, sussurrando-lhe ao ouvido.
"Sabes o que tenho na minha outra mão?"
A criança arredondou o sorriso, suspirou fundo  agitando-se e gritou bem alto.
"Conseguiste... conseguiste avô?
És o melhor avó do mundo,  conseguiste agarrar o meu balão!"

"Tudo é possível quando se sabe sonhar!"
Disse-lhe o velhinho, mais tarde, na hora de se deitarem.
"Agora descansa pois amanhã quero que me ensines a pintar com os teus lápis de cera"

sábado, 18 de abril de 2026

A IRRELEVÂNCIA DAS PEQUENAS COISA




 "Valerá a pena sentir raiva de alguém? "

Perguntei-lhe depois de ela me ter confessado que sentia raiva de algumas pessoas e até lhes desejava o insucesso nas suas vidas.
"O meu psicólogo disse-me que era até saudável sentir raiva de algumas pessoas. E que era bom expulsar essa raiva para fora"
Respondeu-me de pronto.
"Será que é bom mesmo?"
Argumentei, naquele tipo de pergunta, para a fazer falar mais um pouco.
"É bom sim, a natureza humana, para não ser submissa, precisa de se posicionar "


Levei na memória este pequeno episódio, passado à hora do almoço numa esplanada, de um restaurante de tapas em Lisboa. Em que só agora é que entendi, "a tapa",  por o tema da conversa me ter dominado ao longo do dia.
Muito embora entenda a posição do psicólogo, no sentido de tirar cá para fora vestígios de carga negativa que de alguma forma possam pesar. Acredito muito mais que não desejar mal a ninguém, será mais saudável e vantajoso para todos, além de um ganho de tempo precioso, a longo prazo. Isto porque ninguém é mais feliz a usar as suas energias para desejar mal nem a organizar seitas de ódio com fins a desgraçar alguém. Creio até que em muitos casos a energia daqueles que nos desejam mal só nos edifica, dando-nos notoriedade, prestígio, força e até alguma coragem para continuarmos, ainda com mais afinco.

No fundo basta gritar (num habitáculo de um carro, por exemplo...) para expulsarmos a raiva que em dado momento possa estar, ainda, acumulada dentro de nós. Bem sei que não é um processo assim tão fácil, contudo acredito que o complicado, são assuntos que, por lhes darmos grande relevância, acabam por nos trazer uma boa dose de infelicidade por investirmos na desordem, ao não sabermos realmente bem posicionarmo-nos, 
na proa ou na popa do navio.


quinta-feira, 2 de abril de 2026

SILÊNCIOS





Tudo o que nos distância, são silêncios. Pedaços de ideias à deriva num imaginário, em que não abrimos mão delas. Fora isso, tudo se refaz, tudo converge, tudo se simplifica


Tudo fica em paz quando a nossa energia não é desperdiçada em vão.

Tudo fica em nós por encontrar um jeito certo, de não pedir à razão uma explicação por existir.

E tudo ficará sempre por dizer,  mesmo que a eloquência seja capaz de transferir, o monte dos vendavais que sopra entre nós .


sábado, 28 de março de 2026

URGENTE






É urgente o amor,

É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

 

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

 

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.


* Eugénio de Andrade