sexta-feira, 17 de julho de 2020

MÓRBIDO





Vigiar o comportamento dos outros, sobretudo à distância, é uma forma de entendermos a importancia que os mesmos nos dão a nós.
Ainda que todos aqueles que na sombra avistam de longe, talvez não desconfiem que também eles possam estar a ser observados, de perto, à distância por alguém.

Esta análise impera desde à séculos na morbidade de um ser. Que prefere apequenar-se no submisso do seu viver procurando motivos e contrariedades.
 Detalhes que o façam partir rumo a outra história.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

VERDADE VIRGEM




Tudo o quanto uma fotografia é incapaz de contar...

As palavras essas, de nos aproximarem nas suas muitas suposições.

 A uma  realidade que possa entender a verdade, única, sublime, virgem e inacessível 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

ESPLANADA DE SÁBADO




É desumanamente engraçado ficar numa esplanada de sábado ou num domingo, ou de um outro dia qualquer até, em que não chova nem faça vento... E dali daquele recanto abrigado da atenção, de tudo e de todos, menos da curiosidade mendiga dos pombos, ficar a contemplar as cores e as texturas da moda, que nos corpos aperaltados, ou não, dos demais se vão exibindo na passarela Epicuriana de um viver.
Tem dias que a urbe se conjuga numa harmonia e num pandam de tons a toda a prova que dá até para imaginar, que tal qual boletim meteorológico, houve um critério pensado e atempado para a escolha das peças a vestir. Tem outros dias que, e hoje é um desses dias, as pessoas acordam à pressa e "vestem-se de ananás", vestindo tudo o que lhes vem à mão, ou de qualquer forma, sem sentido nem encadeamento nenhum.

Atento, espectante e muito observador, a contemplar sem precrustar nem olhar de forma constrangedora e abusiva os transeuntes que se atrevem a pass(e)ar ao longo deste meu foco. Constato que, a mascara da cara e do corpo, as roupas dos pés à cabeça, adqueriram formas, corte, texturas, marcas e cores dificeis de explicar...
E como a ironia é a forma com que me debato daqui na escrita, mesmo sem ter o intuito de ridicularizar ninguém, tento ir ainda mais ao fundo no esmiuçar desta razão de estilos e formas de andar vestido sem sentido, ainda que parcialmente todos tenham os 5 sentidos intactos, creio eu, e que sintam "o mundo das sensações" também.
Já que falo em sentidos debrusso-me apenas num, no do gosto,.. No gosto que a saliva me induz na boca para ensaiar esta tese que em nada mais é  do que um fragmento incapaz de explicar, a mim e aos pombos, o que quer que seja.

Porque nos afastámos tanto do conforto que um corpo precisa na hora de escolher uma roupa para se vestir?
Será que esta analogia, este detalhe ou simplesmente desumana ironia não servirá também para explicar haver tanta incerteza e obscuridade na hora de se assumir escolher um amor para viver... Um amor que nos dê conforto na hora de o vestir?
Ou será que o conforto de um corpo nessas alturas é posto de lado, dando-se mais ênfase à derme, ao ego e a um triste fado, do que à epiderme da pele, que suporta as intempéries tempo e dos arrepios?

Em jeito de conclusão...
Se é confortável para a pele, um dia também o gosto  é bem capaz de se converter!

É desumanamente engraçado ficar numa esplanada de sábado ou num domingo, e porque não até de um outro dia qualquer, em que hajam sempre pombos curiosos mas também a timidez saltitante e gulosa dos pardais. Para que o escárnio daqui se faça sentir no eco e na audiência, por mais...
Na hora de comer as migalhas pelo chão, que em vão, são banalmente pisadas e ignoradas no vai e vem de um viver.


segunda-feira, 6 de julho de 2020

VÍCTOR HUGO




"A alma é o único passaro preso que carrega consigo a sua gaiola"

segunda-feira, 29 de junho de 2020

REBOBINAR




Por mais que o Alzheimer um dia nos castigue nunca te esqueças do verso da nossa canção.
Que em abono da verdade, em nada tem a ver com a rima da melodia  de um refrão qualquer, se não, com a empatia com que nossos olhos sempre se quiseram.

Por mais adormecida que uma vida se encontre há sempre no peito mais que uma singularidade de um coração a bater

Desejar também se treina, não te esqueças disso.
Pois foi assim por treinar de uma forma tão deliberada e intensa que arriscamos a pele na pele, que nos rendemos ao atear a saliva no suor, que selvagens nos concedemos ao prazer, sem esperar um do outro sequer, retornas de uma lógica qualquer.

Agora só nos resta sonhar e esperar, quem sabe o descanso nos traga em sonhos, por recordações que certamente se realizaram a dois...

A nossa finitude só é bela enquanto houver rewinds que nos façam dar um passo atrás para olharmos de novo, e seguir adiante, mais equilibrados em frente.

Agora sonha bonito...


segunda-feira, 15 de junho de 2020

SINAPSE OCULAR





Como se alimenta o olhar se o paladar é tão necessário e, está só ao alcance da boca?

Será que basta dar aos olhos mais animação, cores, formas, sabores, vinho, "sede", luxuria, tesão?
Será que é através das boas ações que motivamos o pirilampo maestro que há dentro de nós a iluminar toda a córnea ocular?
Será que um bejo basta para alimentar a chama?

Será que desentoxicar com meditação, jejum intermitente ou não, leitura, música, alimentação, sol, desporto, culinária... não bastará para, polir as sinapses sensoriais e de novo voltar a carborar?
Será que há um brilho que, tal como a pele que fica mais baça com o passar do tempo, também este possa se gastar um dia?
Será que a riqueza das fontes só podem correr inadvertidamente sem a acção directa do homem?

Será que voltar a aprender a brincar é a solução para resgatar a criança que há em nós?
Será que só brilham os olhos, que são mais amigos e parceiros da sua voz interior?
Será que o brilho do olhar é mais espectacular naqueles em que uma mãe é no sempre presente nunca deixando os seus filhos órfãos?
Será que são os sonhos que nutrem um olhar?

Será que te deixas roubar pelos outros, o teu brilho?
Será o amor em todas as vertentes do o seu fulgor, quem nos abastece?
Será que ver e calar, viver omisso , cobarde, fraco, destorcidamente humilde é a razão para o apagão do olhar que tanto nos ensurdece?

* "O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano tudo isto contribui para esta perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for suscetível de servir os nossos interesses"

* José Saramago 



sexta-feira, 5 de junho de 2020

APOCALISE




Ensurdessedoras angústias acordam muito antes de um despertar.
Lá fora nas ruas, ao relento, há cada vez mais uns quantos a dormir.
A tristeza, essa, já não se solidariza a um mero gesto simbólico de uma ajuda alimentar.
E para azar dos azares, um despertador toca à toa, confuso, sem motivar a plebe a se insurgir.
O trânsito caótico de carros, estancionados nos passeios, circunda as artérias pejadas de alcatrão
O tabaco é caro, mas se mata o vício, não há mesmo nada a fazer.
Nas televisões dissimuladas, passa mais um telejornal de desinformação.
E na prisão de cada casa há cada vez mais gente amontuada, fetida, húmida e mal encarada, sem saber enganar a fome a adormecer.

A palavra há muito desprezada, e mal empregue, reveste-se agora desimulada num troco de pão.
O homem cada vez mais crente em quase nada, mas sempre dono da sua razão, vai coçando na pele feridas até se formarem chagas, imaginando-se a transportar a cruz na sua jornada pelos caminhos  tortuosos da salvação.
Os tecnocrátas, exímios anarquistas da corrupção, vergam-se de joelhos, como fedelhos a fazerem birras, já sem arte nem engenho para extorquir o dízimo à  nação.

E no fundo de um beco sem saida, escuro, húmido e sombrio,  há mais um feto a vir ao mundo de estômago vazio, sem vontade de querer furar a vida. Nasceu literalmente a chorar e a gritar, como se à partida quise-se perecer logo ali. Isto por  ter nascido um sem abrigo, sem roupa e sem tecto. Um órfão mais órfão que um mendigo, carenciado de colo e de afecto. Uma vida à partida desprovida de nexo.
Uma história sem pulsação nem memória para haver um amanhã num futuro, capaz de se orgulhar.