sábado, 25 de agosto de 2012

TELEVISÃO

Acomoda-te ao sofá
e liga a televisão
Vem ver a desgraça
e a miséria a acontecer
Toda ela compactada
por mil canais de informação
E fingir que dá gosto
dar atenção...
Ao enquadramento da tela
que manieta e sequestra o prazer

Traz as pipocas para a sala
hoje não perco esta guerra
Onda de terror e sangue
dão o mote...
Ao top
da ignorância
Que a todos cega
Que em todos grita

No intervalo da barbárie
faz-se um zaping até ao parlamento
...mas por pouco tempo
Para não perder na segunda parte
...pitada
De uma família desempregada
que sobrevive na miséria
Com um pouco quase nada
do quase tudo que um governo subtraì

E de novo...
No epicentro do conflito
surge em directo um repórter
para nos dar conta
da intensidade de um grito
Preso na boca de uma criança
Que perdeu um seu ente querido
PAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIII...
Agonia pura
Coração partido
que é vê-la chorar
Em seu olhar distorcido

A desgraça..
A fome...
E a miséria...
Passam aqui todos os dias
Em primeira mão
Num plasma de uma casa qualquer
Que nos subtrai
e esmiúça em "polegadas"...
A atenção
Num corpo desacreditado de crer
Cinza de fogueira
sem chama para viver
Amarrado e preso
a um comando de televisão

domingo, 29 de julho de 2012

Mar


Eu sou fruto querendo virar flor...
Pedaços de sentimentos boiando náufragos em meus pensamentos, nem sempre claros, mas sempre recolhidos de um mar que é meu

sábado, 30 de junho de 2012

Metades

 









Há uma porta entreaberta
onde se contemplam metades
Há um meio e um caminho
onde a solução acena ao longe
Há uma metade que se insurge
E há uma outra meia metade
que se esconde...

Há metades que são simplicidades
onde se acomodam as desculpas
Há um todo de verdade e perfeição
quando se caminha e crê no mundo da ilusão
E há apenas o haver sem nada fazer
para que haja uma profunda e inteira revolução

Há um imediato momento
em que colidimos por pensamentos
Há um passo equidistante
onde brotam as saudades
Há um haver de querer
sem nada ter feito
E há um querer de viver
por tudo o que perdemos

Há meias metades
que no sempre se contemplam
Há metades de metades
que diariamente se ignoram
E há outras meias metades
que para sempre..
no sempre choram




quinta-feira, 21 de junho de 2012

SABEDORIA







Toda a unidade é sabedoria

quando se distancia

de um seu pensamento

Por não haverem espaços vazios

nem tempo

Para divagar sob existências

Que não cabem no seu preciso exacto

Imediato

Momento



segunda-feira, 21 de maio de 2012

OLHOS DE CRIANÇA




Na gravilha desta estrada
vou compondo no alcatrão poemas
Para que os caminhos
não sejam tão distantes
Nem as paixões uma contrariedade

Nas paredes da cidade
vou escrevendo canções de amor
Para que as andorinhas
voltem sempre com a Primavera
a construir os seus ninhos
sob os beirais

A cada passo que dou
vou compondo na terra fados
Para que calcados
Sejam semeados...
Rebentos
Num abraço
com aromas a manhãs de verão

No litoral deste olhar
vou alinhavando quadras...
Molhadas de sentimento
Para que as vagas do tempo
não sejam por nunca lamentos
Mas sim lembranças
Momentos
Dos dias que passaram
e que ficaram...
Em olhos lacrimejantes de petiz

sexta-feira, 18 de maio de 2012

SUOR


Moldo-me à pele
do teu traço
por me querer essência
Matéria odorífera
a flutuar...
Suspensa
Sob corpos nus
que se subtraem
e se atropelam...
Por entre lençóis
que amarram
e novelam
O orvalho
na teia de um suspiro

Adoro pingar de um sangue que é teu
Coagular nas paredes
os movimentos abstractos
Perspectivas
alusivas
à dinâmica dos retratos
Das posições sutricas
subordinadas...
Ao ritmo incessante do prazer

Entorno a cabeça ao céu
e apanho-te no extremo de um grito
Num êxtase molhado, prolongado e aflito
Em conter toda a satisfação
que da carne fermenta
Numa pele que não aguenta
A febre que do sal se escapa

Na cama semeados
Ficámos literalmente prostrados
Extasiados
A contemplar um tecto...
Pintado
Abóbada Sistina aguarelada
Geometricamente pintada
Por emoções
que a lógica
jamais irá um dia alcançar

terça-feira, 8 de maio de 2012

CUIDAR




Se o vazio um dia chegar
e no pensamento eu nada ser
Jamais serei paixão
Nem espaço em ti que me ampare...

Não me prometas o céu
se da terra não colhes a flor
Não prometas o mundo
se tens medo de viajar descalça
Não me prometas um amanhã
se no imediato
é sempre tarde de mais
Nem me prometas nada...

Fica apenas
e fecha os olhos
A cada beijo meu

Porque amar é utopia
daquele que vive na saudade
Amar é poesia
na palavra que o poeta esqueceu
Amar é um quase nada
que um quase tudo não sabe explicar
Pois amar
é um tão e somente apenas…
Num simples e só cuidar